Visa VAMP e Programas de Monitoramento de Chargeback
Visa VAMP, VFMP, VDMP e Mastercard ECM definem limites que, se ultrapassados, custam muito mais do que chargebacks individuais. Entenda os limiares, as consequências e o que fazer antes de entrar em um programa.
DisputeDesk Editorial
Se sua taxa de chargeback está subindo, você já está dentro da janela de risco
Os programas de monitoramento de chargeback das redes não funcionam como uma multa pontual. Eles funcionam como um relógio: cada mês dentro do programa acumula custos, pressão sobre o acquirer e risco de encerramento de contrato. O problema é que a maioria dos lojistas descobre que está próxima de um limiar depois que o acquirer já recebeu a notificação da rede — não antes.
Este artigo percorre os programas ativos da Visa e da Mastercard, os limiares que importam operacionalmente, e o que fazer no Shopify Admin antes de receber qualquer notificação formal. Se você já recebeu uma notificação, a segunda metade do artigo trata especificamente dessa sequência.
Visa VAMP: o que mudou em abril de 2025 e o que isso significa na prática
Até março de 2025, a Visa operava dois programas separados: o VDMP (Visa Dispute Monitoring Program), focado em volume de chargebacks, e o VFMP (Visa Fraud Monitoring Program), focado em fraude reportada. Em abril de 2025, a Visa consolidou ambos no VAMP — Visa Acquirer Monitoring Program — com uma lógica diferente: o programa agora monitora o acquirer, não diretamente o lojista, mas os limiares são calculados por MID (merchant ID) e o acquirer repassa a pressão ao lojista.
A mudança mais relevante para lojistas é a migração de volume absoluto para taxa percentual. O antigo VDMP tinha um limiar de 100 chargebacks por mês com taxa acima de 0,9% — o que significava que lojistas de baixo volume podiam ter taxas altas sem acionar o programa. O VAMP eliminou essa proteção implícita. O limiar padrão é 0,9% de taxa de chargeback calculada sobre o volume de transações do mês anterior, independentemente do volume absoluto. Confirme com seu acquirer se há limiares específicos para o seu segmento ou região, pois a Visa mantém variações para mercados selecionados.
Há dois níveis dentro do VAMP:
- Early Warning (Aviso Antecipado): taxa entre 0,65% e 0,89%. Nenhuma multa ainda, mas o acquirer recebe notificação e espera-se um plano de remediação documentado.
- Standard (Padrão): taxa igual ou superior a 0,9%. Multas mensais começam a acumular. O valor exato varia por acquirer e contrato — confirme com seu processador — mas historicamente ficam entre US$ 25.000 e US$ 50.000 por mês para lojistas que permanecem no programa por mais de três meses.
O que o VAMP não mudou: a janela de cálculo ainda é o mês calendário anterior, e a Visa notifica o acquirer tipicamente entre o 10º e o 15º dia do mês seguinte. Isso significa que você tem, na prática, menos de duas semanas entre o fechamento do mês e a notificação formal — tempo insuficiente para qualquer remediação retroativa.
VDMP e VFMP legados: o que ainda aparece em notificações
Mesmo após a consolidação no VAMP, alguns acquirers brasileiros ainda referenciam VDMP e VFMP em comunicações internas e contratos firmados antes de 2025. Se você receber uma notificação com esses termos, trate como VAMP para fins operacionais e peça ao acquirer a tabela de limiares atualizada. A estrutura de multas pode diferir ligeiramente dependendo de quando o contrato foi assinado.
O VFMP legado tinha um limiar separado para fraude reportada: US$ 75.000 em volume de fraude com taxa acima de 0,9% sobre transações. O VAMP absorveu essa métrica, mas a lógica de cálculo mudou — agora fraude e chargeback são avaliados conjuntamente dentro da taxa consolidada. Para lojistas com alto volume de disputas por transação não autorizada (Visa 10.4), isso é relevante: cada chargeback de fraude conta duplamente na métrica consolidada.
Mastercard ECM: dois níveis, multas que escalam rápido
O Mastercard Excessive Chargeback Program (ECM) opera com uma lógica de dois níveis que pune a permanência prolongada mais do que a entrada inicial.
O cálculo base é: chargebacks do mês dividido por transações do mês anterior. Os limiares são:
- Excessive Chargeback Merchant (ECM): taxa entre 1,5% e 2,99%, com volume mínimo de 100 chargebacks no mês.
- High Excessive Chargeback Merchant (HECM): taxa igual ou superior a 3%, com volume mínimo de 300 chargebacks no mês.
As multas no nível ECM começam em US$ 1.000 no primeiro mês e escalam progressivamente — chegando a US$ 25.000 mensais após o quarto mês consecutivo. No nível HECM, as multas começam em US$ 25.000 e podem atingir US$ 100.000 mensais. Confirme os valores exatos com seu acquirer, pois a Mastercard revisa a tabela periodicamente e os contratos de acquirer podem ter variações regionais.
Um detalhe operacional que frequentemente passa despercebido: a Mastercard também aplica uma taxa de avaliação por chargeback individual para lojistas dentro do ECM — atualmente US$ 5 por chargeback acima do limiar, além das multas mensais. Para lojistas com volume alto, essa taxa por unidade pode superar a multa mensal fixa.
Diferente do VAMP, o ECM não tem um nível de "aviso antecipado" formal. A entrada no programa acontece assim que os limiares são atingidos, sem período de graça. O acquirer recebe notificação da Mastercard e tem obrigação contratual de notificar o lojista — mas o prazo para essa notificação secundária varia por acquirer. Perguntar ao seu acquirer qual é o prazo deles para repassar notificações ECM é uma conversa que vale ter antes de precisar dela.
Como calcular sua taxa agora — sem esperar o acquirer
O Shopify Admin em Pagamentos > Contestações mostra o volume de disputas abertas e o histórico de contestações, mas não calcula automaticamente a taxa percentual sobre o volume de transações. Para calcular manualmente:
- Acesse Shopify Admin > Análises > Relatórios e exporte o relatório de vendas do mês anterior. Anote o número total de transações aprovadas.
- Acesse Pagamentos > Contestações e filtre pelo mesmo período. Conte o número de chargebacks recebidos — não consultas, apenas chargebacks formais.
- Divida o número de chargebacks pelo número de transações e multiplique por 100. Esse é o seu percentual bruto.
- Compare com os limiares: 0,65% (VAMP Early Warning), 0,9% (VAMP Standard), 1,5% (ECM).
Esse cálculo é uma aproximação. As redes calculam com base em transações liquidadas, não em pedidos aprovados, e podem excluir certas categorias dependendo do MCC (código de categoria do lojista). Para uma leitura precisa, peça ao seu acquirer o relatório de taxa de chargeback mensal — a maioria dos acquirers brasileiros disponibiliza isso no portal do lojista ou mediante solicitação por e-mail.
Se você usa Shopify Payments, o gateway é a Stripe no Brasil para a maioria dos planos. A Stripe disponibiliza métricas de disputa no painel de disputas separado do Shopify Admin — vale verificar os dois painéis, pois os números podem diferir ligeiramente por conta de timing de liquidação.
Ponto de decisão: você está em Early Warning ou já passou do limiar?
Essa distinção determina a urgência e o tipo de ação necessária.
Se você está em Early Warning (0,65%–0,89% no VAMP): você tem tempo para remediação sem multas. A prioridade é identificar as categorias de chargeback que estão puxando a taxa — fraude (10.4/4837), INR (13.1/4855) ou SNAD (13.3/4853) — e atacar a causa raiz de cada uma. Um plano de remediação documentado enviado proativamente ao acquirer nesse momento é muito mais eficaz do que qualquer comunicação após a entrada no programa. O acquirer tem interesse em manter você fora do programa porque as multas também afetam a métrica do acquirer junto à Visa.
Se você já ultrapassou 0,9% (VAMP Standard) ou 1,5% (ECM): a notificação formal do acquirer é questão de dias ou semanas. Nesse cenário, a ação imediata tem dois eixos paralelos: (1) comunicação com o acquirer antes da notificação formal, com um plano de remediação em mãos; e (2) triagem agressiva dos chargebacks em aberto para recuperar o que for recuperável e reduzir o volume líquido do próximo mês.
A consequência de não agir no segundo cenário não é apenas a multa mensal. Acquirers têm obrigações contratuais com as redes e, após três a quatro meses consecutivos em programa sem melhora demonstrável, o encerramento do contrato de processamento é uma possibilidade real — não uma ameaça vaga. Reabrir processamento com outro acquirer depois de um encerramento por risco é um processo que pode levar meses e frequentemente resulta em condições comerciais piores.
O que comunicar ao acquirer — e como estruturar o plano de remediação
Um plano de remediação que convence um acquirer tem três componentes: diagnóstico, ações concretas com prazo, e métricas de acompanhamento. O que não funciona é uma carta genérica prometendo "melhorar os processos internos".
Abaixo um modelo de nota interna que pode ser adaptado para comunicação formal com o acquirer:
Nota de remediação — [Nome do lojista] — [Mês/Ano]
Taxa de chargeback apurada no período: [X]%. Volume de chargebacks: [N]. Volume de transações: [N].
Distribuição por categoria: fraude não autorizada [N chargebacks / X%], item não recebido [N / X%], produto não conforme [N / X%].
Causa raiz identificada: [ex.: concentração de chargebacks de fraude em pedidos acima de R$ 800 com entrega para endereços diferentes do cadastro do cartão — 67% dos casos de fraude no período].
Ações implementadas: (1) Regra de revisão manual para pedidos acima de R$ 800 com divergência de endereço ativada em [data]; (2) Integração com serviço de verificação de endereço aprimorada em [data]; (3) Política de reembolso antecipado para casos de INR com rastreamento sem atualização há mais de 15 dias — reduz conversão de consulta em chargeback.
Meta: redução de taxa para abaixo de 0,7% no próximo período de 60 dias. Próxima revisão: [data].
Esse nível de especificidade — causa raiz com percentual, ações com data de implementação, meta quantificada — é o que diferencia uma comunicação que o acquirer arquiva de uma que ele usa para justificar manutenção do contrato junto à equipe de risco da rede.
Onde a taxa de chargeback se acumula sem que o lojista perceba
Três padrões operacionais que inflam a taxa de forma silenciosa, frequentemente visíveis no histórico de contestações do Shopify Admin:
Chargebacks de INR em períodos de alta demanda. Atrasos de transportadora durante datas comemorativas geram ondas de chargebacks 30 a 45 dias depois — exatamente quando o volume de transações do denominador já caiu. A taxa calculada sobre o mês de entrega é artificialmente alta porque o numerador (chargebacks) pertence a um período de volume maior, mas o denominador (transações do mês atual) é menor. Isso não é uma distorção que as redes corrigem — é como o cálculo funciona. Antecipar comunicação proativa com clientes sobre atrasos reduz a conversão em chargeback antes que o prazo de contestação seja aberto.
Reembolsos processados após o chargeback aberto. Quando um cliente abre um chargeback e o lojista processa o reembolso em paralelo, o chargeback ainda conta na taxa — o reembolso não cancela o registro. A única forma de remover o chargeback da contagem é ganhar a contestação formal ou, em alguns casos, solicitar ao acquirer a retirada do caso como "aceito pelo lojista antes da disputa" — o que requer documentação e nem sempre é aceito. Confirme com seu acquirer qual é o procedimento para casos onde o reembolso foi processado antes da resolução formal.
Múltiplos chargebacks do mesmo cliente em períodos diferentes. Um cliente que abre chargebacks em meses consecutivos conta como múltiplos eventos na taxa. No Shopify Admin em Pedidos > [pedido específico] > Linha do tempo, você consegue ver o histórico de disputas por pedido. Cruzar o e-mail ou endereço do cliente com o histórico de contestações identifica padrões de abuso que justificam bloqueio preventivo — o que reduz tanto o volume de chargebacks futuros quanto a exposição a fraude amigável recorrente.
Shopify Payments versus gateways de terceiros: onde os dados aparecem
Se você usa Shopify Payments, as contestações aparecem em Pagamentos > Contestações com prazo, código de motivo e status visíveis diretamente no Admin. O gateway (Stripe, no Brasil) também envia notificações por e-mail, mas o painel do Admin é a fonte primária para triagem.
Se você usa um gateway de terceiros — Cielo, Rede, PagSeguro, Adyen, entre outros — os chargebacks aparecem no painel do gateway, não no Shopify Admin. O Shopify Admin pode mostrar o pedido marcado como "em disputa" dependendo da integração, mas os detalhes do chargeback, o prazo de resposta e o código de motivo precisam ser consultados diretamente no portal do gateway. Isso cria um risco operacional real: lojistas que monitoram apenas o Shopify Admin perdem prazos de chargebacks processados por gateways de terceiros.
Para lojistas com gateway de terceiros, a configuração mínima é um alerta de e-mail no portal do gateway para cada novo chargeback recebido, com redirecionamento para um endereço monitorado diariamente. Não existe substituto para isso — o Shopify não puxa automaticamente os dados de disputa de gateways externos.
Sequência operacional se você receber uma notificação formal de programa
Quando o acquirer notifica formalmente que você entrou em um programa de monitoramento, execute esta sequência nas primeiras 48 horas:
- Confirme o período de referência e a taxa calculada. Peça ao acquirer o relatório detalhado com o numerador e denominador usados no cálculo. Erros de cálculo acontecem — especialmente em casos de chargebacks de períodos anteriores que foram registrados com atraso.
- Exporte o histórico de contestações do período. No Shopify Admin em Pagamentos > Contestações, filtre pelo período de referência e exporte. Se usar gateway de terceiros, faça o mesmo no portal do gateway.
- Categorize por código de motivo. Fraude, INR e SNAD têm causas raiz e remediações diferentes. Um programa de monitoramento alimentado principalmente por INR tem solução diferente de um alimentado por fraude.
- Identifique os 20% de pedidos que respondem por 80% dos chargebacks. Frequentemente há concentração por faixa de valor, categoria de produto, método de entrega ou região geográfica. Essa concentração é o que você leva para a conversa com o acquirer.
- Prepare o plano de remediação e agende uma chamada com o gerente de risco do acquirer. E-mail é insuficiente para esse nível de comunicação — uma chamada com o gerente de risco documenta intenção e cria um canal direto para atualizações mensais.
O objetivo das primeiras 48 horas não é resolver o problema — é demonstrar ao acquirer que você tem controle sobre o diagnóstico e um plano em andamento. Acquirers que recebem essa comunicação proativa têm mais margem para defender a manutenção do contrato internamente do que aqueles que ficam sem resposta do lojista por semanas.
O que os programas de monitoramento não cobrem — e onde o risco real está
Os limiares dos programas são calculados sobre o total de chargebacks, mas as redes também monitoram métricas secundárias que não acionam programas formais mas influenciam decisões de acquirer: taxa de chargebacks ganhos versus perdidos, concentração de fraude por BIN, e padrões de reembolso pré-chargeback. Um lojista com taxa de 0,7% mas que perde 90% das contestações que abre está enviando um sinal de risco diferente de um lojista com a mesma taxa e 60% de taxa de sucesso em contestações.
Manter um registro interno de contestações abertas, resultado (ganho/perdido/concedido) e motivo da perda é o tipo de dado que, ao longo de três a seis meses, revela padrões que nenhum relatório de acquirer vai mostrar automaticamente. No Shopify Admin, isso não existe como relatório nativo — precisa ser construído manualmente ou com uma ferramenta de gestão de disputas que agregue os dados por período e categoria.
Programas de monitoramento são o sintoma visível de um problema de volume. O trabalho real é nos dados que ficam abaixo do limiar — nos chargebacks que você está perdendo por razões operacionais, nos pedidos de alto risco que estão sendo aprovados sem revisão, e nas políticas de reembolso que estão convertendo reclamações em disputas formais quando não precisariam. Esses são os vetores que determinam se você vai cruzar um limiar no próximo trimestre — não o mês em que a notificação chega.
Principais conclusões
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